OPERAÇÃO NO VIDIGAL: O QUE ESTÁ POR TRÁS DA FUGA DE TRAFICANTES DA BAHIA PROTEGIDOS PELO CV NO RIO
Na manhã desta segunda-feira, 20 de abril de 2026, o Morro do Vidigal acordou sob o som de rajadas de fuzil e o barulho de helicópteros rasgando o céu da Zona Sul do Rio de Janeiro. A Operação Duas Rosas II, conduzida pela CORE — Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil fluminense — em conjunto com o Ministério Público e a Secretaria de Segurança Pública da Bahia, tinha um objetivo preciso: capturar lideranças do Comando Vermelho que, foragidas de presídios baianos, encontraram no Rio de Janeiro um novo quartel-general sob a proteção da maior facção criminosa do país. O principal alvo escapou. Mas o que ficou para trás revela muito mais do que uma simples ação policial malsucedida.
A operação no Vidigal expôs, com uma clareza desconcertante, a espinha dorsal de um modelo criminoso que vem se consolidando silenciosamente no Brasil: a exportação de fugitivos entre estados, sob o guarda-chuva do Comando Vermelho, que funciona cada vez mais como uma rede de proteção supraestadual para lideranças do tráfico. Turistas ficaram ilhados no topo do Morro Dois Irmãos. A Avenida Niemeyer foi bloqueada com um ônibus e contêineres incendiados. E a pergunta que fica é inevitável: como chegamos até aqui?
A Operação Duas Rosas II e os alvos foragidos da Bahia
O nome da operação não é por acaso. "Duas Rosas" faz referência, segundo fontes ligadas às investigações, às duas frentes de atuação que a ação buscava desmantelar simultaneamente: a estrutura operacional do PCE — Primeiro Comando de Eunápolis, facção criminosa do sul baiano associada ao CV, e sua rede financeira de lavagem de recursos. Os principais alvos eram Ednaldo Pereira dos Santos, o "Dadá", e Wallas Souza Soares, o "Patola" — dois dos líderes da organização que, em dezembro de 2024, fugiram do Conjunto Penal de Eunápolis junto com outros onze detentos.
No total, treze fugitivos daquela fuga estariam sob a proteção do Comando Vermelho no Rio de Janeiro. De acordo com as investigações, mesmo à distância de seus territórios originais, esses líderes continuavam articulando ações criminosas, comandando o tráfico na Bahia por meio de telefones celulares e rádios transmissores — tecnologia apreendida durante a operação desta manhã. "Dadá", o principal alvo, havia alugado uma casa no Vidigal para passar o fim de semana com a família. Soube da operação e fugiu antes da chegada dos agentes.
Quem é "Dadá" e por que ele importa para entender o crime organizado no Brasil
Ednaldo Pereira dos Santos não é apenas mais um nome em um mandado de prisão. Segundo as investigações do Ministério Público da Bahia, "Dadá" é peça central na estrutura do PCE — uma facção que, nos últimos anos, expandiu seu alcance para além do Extremo Sul baiano, estabelecendo conexões firmes com o CV carioca. A fuga do Conjunto Penal de Eunápolis em dezembro de 2024 foi, na avaliação dos investigadores, planejada e facilitada por membros da própria organização com infiltração dentro do sistema penitenciário.
O padrão é familiar para quem acompanha a história do crime organizado brasileiro. Nos anos 1990, o Comando Vermelho já operava com uma lógica semelhante: lideranças presas no Rio passavam a comandar operações em outros estados usando cartas e visitas monitoradas como canal de comunicação. Com o advento dos celulares e das redes criptografadas, esse modelo evoluiu dramaticamente. Hoje, um líder foragido no Vidigal pode coordenar uma operação de tráfico em Eunápolis, a mais de 800 quilômetros de distância, em tempo real.
Núbia Oliveira presa: a financeira do crime que o dinheiro não escondeu
Se "Dadá" escapou, a operação não saiu de mãos vazias. A prisão de Núbia Santos Oliveira foi, segundo especialistas em segurança pública, um golpe estratégico. Núbia é apontada pela SSP-BA como uma das principais operadoras financeiras da organização criminosa — a mulher que, nos bastidores, garantia que o dinheiro do tráfico circulasse de forma aparentemente lícita. Ela é esposa de "Patola" e responde a dois mandados de prisão por tráfico de drogas e homicídio.
A relevância da prisão vai além do simbolismo. Nos últimos anos, a inteligência policial brasileira aprendeu — em parte pela observação de modelos internacionais de combate ao narcotráfico — que desmantelar a camada financeira de uma organização criminosa causa mais dano estrutural do que prender combatentes de linha de frente. Sem o fluxo de dinheiro lavado, as operações logísticas do tráfico travam. Com Núbia detida, a pressão sobre o PCE se intensifica mesmo que "Dadá" permaneça foragido.
Turistas ilhados no Morro Dois Irmãos: o turismo em zonas de conflito
Uma das imagens mais perturbadoras da manhã desta segunda foi o registro de turistas aglomerados no topo do Morro Dois Irmãos, impedidos de descer pela trilha que percorre o alto do Vidigal. O grupo ficou "ilhado" por quase uma hora — entre as 6h20, início da operação, e as 7h20, quando os agentes garantiram condições mínimas de segurança para a descida. Eram visitantes que haviam subido ainda na madrugada para ver o nascer do sol sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Oceano Atlântico — um dos roteiros turísticos mais procurados do Rio.
O episódio reacende um debate que a cidade do Rio enfrenta ciclicamente: o dilema entre o turismo em comunidades pacificadas e a realidade do crime organizado que nunca foi de fato erradicado dessas localidades. O Vidigal foi uma das primeiras favelas a receber uma UPP — Unidade de Polícia Pacificadora — no início da década de 2010, e por alguns anos chegou a ser exibido internacionalmente como um caso de sucesso da política de segurança carioca. A operação desta manhã lembra, com brutalidade, que aquela narrativa de "pacificação" sempre foi mais frágil do que parecia.
- 6h20 — Início da operação da CORE no Morro do Vidigal
- 6h30 — Centro de Operações do Rio registra interdição da Avenida Niemeyer por barricada de ônibus e contêineres incendiados
- 6h50 — Avenida Niemeyer é liberada com auxílio da Polícia Militar
- 7h20 — Turistas ilhados no Morro Dois Irmãos conseguem descer com segurança
- Ao longo da manhã — Prisão de Núbia Santos Oliveira e de um homem não identificado com fuzil
- Resultado final — "Dadá" foge; apreensões incluem fuzil, espingarda calibre 12, pistola, drogas, rádios transmissores e roupas camufladas
A dimensão interestadual do Comando Vermelho: o que mudou no crime organizado
Para entender a operação no Vidigal em profundidade, é preciso recuar no tempo. O Comando Vermelho nasceu nos presídios fluminenses no final dos anos 1970, influenciado pela convivência de presos políticos da ditadura militar com criminosos comuns no presídio da Ilha Grande. Durante décadas, foi essencialmente uma organização local, com territorialidade definida pelas favelas do Rio. O salto para uma estrutura supraestadual é relativamente recente — e está diretamente relacionado ao endurecimento das políticas penitenciárias no Rio a partir de meados dos anos 2000.
Com lideranças presas em presídios federais de segurança máxima, o CV precisou encontrar novas formas de perpetuar sua estrutura de comando. A solução encontrada foi a expansão territorial: criar laços com facções regionais em outros estados — como o PCE na Bahia — que, em troca de proteção e suporte logístico, passavam a compor uma rede nacional de poder. O resultado é o cenário que a Operação Duas Rosas II revelou: fugitivos baianos se refugiam em favelas cariocas, e o Rio de Janeiro se torna um corredor de proteção para líderes criminosos de todo o país.
O que pode acontecer a seguir: cenários possíveis após a operação
A fuga de "Dadá" não encerra a história — pelo contrário, pode acelerá-la. As investigações, segundo comunicado oficial da SSP-BA, continuarão de forma permanente até a captura de todos os foragidos. Há três cenários plausíveis que os analistas de segurança pública consideram mais prováveis nos próximos meses.
O primeiro é o aperto do cerco: com Núbia Oliveira detida e a estrutura financeira comprometida, "Dadá" perde parte significativa de sua capacidade operacional. A tendência é que ele precise se deslocar novamente, aumentando sua exposição e, consequentemente, sua vulnerabilidade a ser localizado. O segundo cenário envolve uma retaliação: facções em situação de pressão policial tendem a reagir com aumento da violência para demonstrar força e manter a coesão interna. O terceiro, menos provável mas não desprezível, é a negociação: foragidos em situação de extrema pressão às vezes buscam acordos com autoridades, especialmente quando figuras próximas — como a esposa — estão detidas.
- Cenário 1 — Cerco fechado: Prisão financeira de Núbia força deslocamento de "Dadá" e aumenta risco de captura
- Cenário 2 — Retaliação: Pressão sobre o PCE pode gerar aumento da violência no sul da Bahia e no Vidigal
- Cenário 3 — Desdobramentos jurídicos: Prisão de Núbia abre caminho para investigação patrimonial e identificação de novos envolvidos na rede de lavagem
O impacto sobre a segurança pública e o debate eleitoral de 2026
A operação acontece em um momento politicamente sensível. O ano de 2026 é de eleições municipais e estaduais em parte do país, e a segurança pública já se consolida como um dos principais eixos do debate político. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 apontam a Bahia como o estado com maior número absoluto de mortes violentas do país — cerca de 6 mil em 2024 —, com uma de cada quatro mortes violentas causadas por intervenção policial. O Rio, que ocupa a 15ª posição no ranking nacional de mortes violentas intencionais, mantém uma complexidade própria que operações como a desta segunda-feira tornam visível para o país.
A cooperação interestadual demonstrada na Operação Duas Rosas II é, nesse contexto, tanto um avanço quanto uma confissão implícita: o crime organizado já opera em nível nacional há anos, mas as forças de segurança pública ainda estão construindo a arquitetura necessária para responder no mesmo nível. A questão que permanece em aberto — e que nenhum candidato ainda respondeu com clareza — é como o Brasil pretende romper o ciclo de fugas, realocações e proteção mútua entre facções que transformaram o mapa do crime organizado em algo que lembra, cada vez mais, uma confederação criminosa.
Se você chegou até aqui, provavelmente tem uma visão própria sobre o que viu nas últimas horas. O que você acha: a cooperação interestadual entre forças policiais chegou tarde demais, ou estamos diante de um ponto de virada? Deixe seu comentário abaixo e compartilhe este artigo com quem precisa entender o que está realmente acontecendo.
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Perguntas Frequentes (FAQ)
O que foi a Operação Duas Rosas II no Vidigal?
A Operação Duas Rosas II foi uma ação conjunta da CORE (Polícia Civil do RJ), Ministério Público da Bahia, Polícia Civil da Bahia e SSP-BA, deflagrada em 20 de abril de 2026 no Morro do Vidigal, Zona Sul do Rio. O objetivo era capturar lideranças do PCE (Primeiro Comando de Eunápolis), ligado ao Comando Vermelho, que fugiram de presídios baianos em dezembro de 2024 e estavam escondidos no Rio sob proteção do CV.
Quem é "Dadá" e por que ele não foi preso na operação do Vidigal?
Ednaldo Pereira dos Santos, o "Dadá", é apontado como principal liderança do PCE e o alvo central da operação. Ele havia fugido do Conjunto Penal da Bahia em 2024 e estava escondido no Vidigal, onde alugou uma casa para passar o fim de semana com a família. Segundo relatos, "Dadá" soube da operação com antecedência e fugiu antes da chegada dos agentes. As investigações continuam para sua localização e captura.
Por que turistas ficaram ilhados no Morro Dois Irmãos durante a operação?
O Morro Dois Irmãos é um dos principais destinos turísticos do Rio de Janeiro, famoso pela trilha que oferece vista panorâmica sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Leblon e o Oceano Atlântico. A trilha de acesso começa no alto do Vidigal. Com o início do tiroteio durante a operação, os visitantes que haviam subido para ver o nascer do sol ficaram impedidos de descer com segurança e permaneceram no topo por cerca de uma hora, sendo liberados às 7h20.
O que foi apreendido na Operação Duas Rosas II?
Durante a operação, foram apreendidos um fuzil, uma espingarda calibre 12, uma pistola com numeração raspada, grande quantidade de drogas, carregadores de fuzil, rádios transmissores, roupas camufladas e telefones celulares. Também foram realizadas duas prisões em flagrante e cumprido um mandado de prisão contra Núbia Santos Oliveira, apontada como principal operadora financeira da organização.
Fontes consultadas:
- CNN Brasil — Ação contra líderes do CV no Vidigal tem tiroteio e turistas ilhados
- Metrópoles — RJ: operação policial contra chefes do CV acaba em tiroteio no Vidigal
- G1 Globo — Operação policial no Vidigal
- G1 Bahia — Alvos de operação contra o CV no Vidigal são foragidos da Bahia
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